Encontro dos Frades Estudantes de Teologia e Filosofia do Carmelo Descalço no Brasil




Entre os dias 12 e 24 de janeiro os frades formandos de filosofia e teologia das províncias São José, do sudeste, e Nossa Senhora do Carmo, do sul do Brasil se reúnem para o Encontro de Estudantes Carmelitas Descalços.
Encontro fraterno por meio do qual buscamos estreitar os nossos laços, trocando experiências da caminhada das duas províncias no olhar de sua parcela mais jovem, a dos formandos.

Este encontro, além de promover um momento de confraternização entre os frades, tem como objetivo proporcionar a reflexão de temas carmelitanos atuais, concernentes à vida do Carmelo Descalço enquanto família religiosa inserida na Igreja e na sociedade, no apelo de sempre buscar respostas para os anseios do homem no esforço de encontrar a razão de seu existir e relacionar-se, consigo mesmo, com o próximo e com Deus.
Nossa vivencia fraterna será coroada com a profissão solene do Frei Lucas de Santo Elias no dia 24.

Frei Márcio do Carmo, OCD – 1º ano de Teologia
Convento Santa Teresa de Jesus – Província São José

Nova fundação dos Frades Carmelitas na Holanda

Como já haviamos informado anteriormente o convento fundado na Holanda, a pedido da Casa Geral, já começou a receber os frades que serão conventuais nesta grande empresa de Deus. No mês de novembro o Frei João Bonten regressou ao seu país de origem, fazendo o caminho inverso, já que a anos atrás ele veio para o Brasil como missionário, trazendo para nosso solo a riqueza do Carmelo Descalço. Há alguns dias foi a vez do Frei João de Deus que já se enconra em terras Holandesas. Agora estamos aguardando a liberação da documentação do Frei Luciano Henrique que formará com eles a primeira comunidade nesta loucura amorosa pelo Reino de Deus. Acompanhemos nossos irmãos com nossas orações.

Nova Casa dos Frades Carmelitas Descalços em Brasília - DF

Será uma grande alegria para nós carmelitas a abertura de um convento dos frades na cidade de Brasília- DF. Esta casa abrigará a etapa formativa do postulantado. Uma casa que poderá ser uma ligação entre os jovens e as diversas pessoas que desejam entrar em contato com a espiritualidade carmelitana. Logo que o convento esteja instalado informaremos o endereço. Aguardem!!!!!!

Dia 09 - Memória de Santo André Corsini - Bispo


Um sonho anunciou o inicio da vida religiosa de Santo André Corsini, outro sonho anunciou seu fim. O primeiro quem o teve foi sua mãe. O outro, que lhe indicou a data da morte, sonhou ele próprio. André nasceu em Florença, na Itália, em 1301, filho de família nobre e famosa. Antes de o dar à luz, sua mãe sonhou que seu filho nascia lobo, mas se transformava em cordeiro ao entrar numa igreja carmelita.
Até os dezessete anos André viveu sem preocupações morais ou espirituais, cercado de vícios e dando seguidos desgostos aos pais. Com essa idade, ao encontrar a mãe chorando por tudo que ele aprontava, André percebeu que estava no caminho errado. Ela lhe contou sobre o sonho e o rapaz, caindo em si, chorou com ela e prometeu se corrigir.
Prometeu e cumpriu, procurou uma igreja carmelita, iniciou-se na Ordem e começou nova vida. Concluiu os estudos religiosos em Paris, ordenou-se sacerdote e, ainda em vida, operou vários prodígios, portador que era do dom da cura e da profecia. Curou um tumor maligno que ameaçava levar um primo para a morte e previu o destino de um menino, que batizou.
Seus feitos o levaram a ser nomeado bispo de Fiesoli, em Florença, Itália. No entanto, ele recusou o cargo e se escondeu para não ter de assumi-lo. Mas, uma criança de apenas seis anos revelou seu esconderijo, dizendo ser a vontade de Deus que ele encabeçasse a diocese e, assim, o convenceu a aceitar essa tarefa apostólica.
Durante os anos em que ali atuou, foi amado pelo povo e respeitado pelas autoridades. André conseguiu apaziguar divergências mortais entre inimigos e até aproximar a aristocracia e o povo, missão que recebeu do Papa Urbano V e desempenhou com louvor.
Na noite de Natal de 1372 teve um desmaio e recebeu, em sonho, a notícia de que morreria em 6 de janeiro. A partir daí foi dominado por uma febre que não mais o deixou até que a profecia se cumpriu.
Foi sepultado na igreja dos Carmelitas de Florença, onde suas relíquias podem ser veneradas, ainda hoje. Santo André Corsini é o padroeiro da cidade de Florença e a Igreja designou o dia 04 de fevereiro para a sua festa litúrgica.

Dia 08 - Memória de São Pedro Tamás-Bispo


Nasceu por volta do ano 1305 numa aldeia da Aquitânia, França. Os seus pais viviam em pobreza extrema, o que levou Pedro Tomás a abandonar o lar paterno muito cedo para não ser pesado aos seus. Era Pedro Tomás de estatura baixa, mas possuía uma inteligência rara e profunda.
Vivendo de esmolas, conseguiu estudar, tornando-se mestre e professor com apenas 17 anos. Foi convidado para ser professor dos estudantes carmelitas, vindo também ele a entrar na Ordem em 1327. Ensinou várias matérias em muitos conventos da Ordem, até ser nomeado Procurador da Ordem junto à Santa Sé, que então se encontrava em Avignon. Em certa ocasião, vendo o Padre Geral a humilde e pequena aparência do santo, envergonhou-se de apresentá-lo aos Cardeais. No entanto, certo Cardeal, que conhecia a fama de Frei Pedro Tomás, resolveu apresentá-lo.
O Papa fê-lo seu Núncio e Legado, encomendando-lhe muitas e difíceis missões, que Frei Pedro Tomás sempre resolveu bem. Foi arauto e apóstolo incansável da paz e da unidade da Igreja, logo conquistando, em toda a parte, a fama de santo. Depois de ter exercido o cargo de Bispo em várias dioceses, foi nomeado Patriarca de Constantinopla.
Apesar dos altos cargos que exerceu, nas suas viagens, Frei Pedro Tomás procurava sempre, como residência, os conventos dos seus irmãos carmelitas, vivendo como irmão e com os irmãos de Nossa Senhora do Carmo a vida normal da comunidade, segundo a Regra.
Morreu no dia 6 de Janeiro de 1366. Apesar de ser bispo, pediu que o vestissem com o hábito da Ordem. Era muito devoto da Virgem Maria e, um dia, contou a um irmão que Nossa Senhora lhe tinha aparecido, dizendo-lhe que a Ordem do Carmo durará até ao fim dos tempos.

Fontes: www.ecclesia.pt

Mensagem do Papa Bento para o Dia Mundial da Paz

MENSAGEM DE SUA SANTIDADE
BENTO XVI
PARA A CELEBRAÇÃO DO
DIA MUNDIAL DA PAZ

1 DE JANEIRO DE 2009


COMBATER A POBREZA, CONSTRUIR A PAZ

1. Desejo, também no início deste novo ano, fazer chegar os meus votos de paz a todos e, com esta minha Mensagem, convidá-los a reflectir sobre o tema: Combater a pobreza, construir a paz. Já o meu venerado antecessor João Paulo II, na Mensagem para o Dia Mundial da Paz de 1993, sublinhara as repercussões negativas que acaba por ter sobre a paz a situação de pobreza em que versam populações inteiras. De facto, a pobreza encontra-se frequentemente entre os factores que favorecem ou agravam os conflitos, mesmo os conflitos armados. Estes últimos, por sua vez, alimentam trágicas situações de pobreza. « Vai-se afirmando (...), com uma gravidade sempre maior – escrevia João Paulo II –, outra séria ameaça à paz: muitas pessoas, mais ainda, populações inteiras vivem hoje em condições de extrema pobreza. A disparidade entre ricos e pobres tornou-se mais evidente, mesmo nas nações economicamente mais desenvolvidas. Trata-se de um problema que se impõe à consciência da humanidade, visto que as condições em que se encontra um grande número de pessoas são tais que ofendem a sua dignidade natural e, consequentemente, comprometem o autêntico e harmónico progresso da comunidade mundial ».
2. Neste contexto, combater a pobreza implica uma análise atenta do fenómeno complexo que é a globalização. Tal análise é já importante do ponto de vista metodológico, porque convida a pôr em prática o fruto das pesquisas realizadas pelos economistas e sociólogos sobre tantos aspectos da pobreza. Mas a evocação da globalização deveria revestir também um significado espiritual e moral, solicitando a olhar os pobres bem cientes da perspectiva que todos somos participantes de um único projecto divino: chamados a constituir uma única família, na qual todos – indivíduos, povos e nações – regulem o seu comportamento segundo os princípios de fraternidade e responsabilidade.
Em tal perspectiva, é preciso ter uma visão ampla e articulada da pobreza. Se esta fosse apenas material, para iluminar as suas principais características, seriam suficientes as ciências sociais que nos ajudam a medir os fenómenos baseados sobretudo em dados de tipo quantitativo. Sabemos porém que existem pobrezas imateriais, isto é, que não são consequência directa e automática de carências materiais. Por exemplo, nas sociedades ricas e avançadas, existem fenómenos de marginalização, pobreza relacional, moral e espiritual: trata-se de pessoas desorientadas interiormente, que, apesar do bem-estar económico, vivem diversas formas de transtorno. Penso, por um lado, no chamado « subdesenvolvimento moral » e, por outro, nas consequências negativas do « superdesenvolvimento ».Não esqueço também que muitas vezes, nas sociedades chamadas « pobres », o crescimento económico é entravado por impedimentos culturais, que não permitem uma conveniente utilização dos recursos. Seja como for, não restam dúvidas de que toda a forma de pobreza imposta tem, na sua raiz, a falta de respeito pela dignidade transcendente da pessoa humana. Quando o homem não é visto na integridade da sua vocação e não se respeitam as exigências duma verdadeira « ecologia humana »,desencadeiam-se também as dinâmicas perversas da pobreza, como é evidente em alguns âmbitos sobre os quais passo a deter brevemente a minha atenção.

Pobreza e implicações morais

3. A pobreza aparece muitas vezes associada, como se fosse sua causa, com o desenvolvimento demográfico. Em consequência disso, realizam-se campanhas de redução da natalidade, promovidas a nível internacional, até com métodos que não respeitam a dignidade da mulher nem o direito dos esposos a decidirem responsavelmente o número dos filhos e que muitas vezes – facto ainda mais grave – não respeitam sequer o direito à vida. O extermínio de milhões de nascituros, em nome da luta à pobreza, constitui na realidade a eliminação dos mais pobres dentre os seres humanos. Contra tal presunção, fala o dado seguinte: enquanto, em 1981, cerca de 40% da população mundial vivia abaixo da linha de pobreza absoluta, hoje tal percentagem aparece substancialmente reduzida a metade, tendo saído da pobreza populações caracterizadas precisamente por um incremento demográfico notável. O dado agora assinalado põe em evidência que existiriam os recursos para se resolver o problema da pobreza, mesmo no caso de um crescimento da população. E não se há-de esquecer que, desde o fim da segunda guerra mundial até hoje, a população da terra cresceu quatro mil milhões e tal fenómeno diz respeito, em larga medida, a países que surgiram recentemente na cena internacional como novas potências económicas e conheceram um rápido desenvolvimento graças precisamente ao elevado número dos seus habitantes. Além disso, dentre as nações que mais se desenvolveram, aquelas que detêm maiores índices de natalidade gozam de melhores potencialidades de progresso. Por outras palavras, a população confirma-se como uma riqueza e não como um factor de pobreza.
4. Outro âmbito de preocupação são as pandemias, como por exemplo a malária, a tuberculose e a SIDA, pois, na medida em que atingem os sectores produtivos da população, influem enormemente no agravamento das condições gerais do país. As tentativas para travar as consequências destas doenças na população nem sempre alcançam resultados significativos. E sucede além disso que os países afectados por algumas dessas pandemias se vêem, ao querer enfrentá-las, sujeitos a chantagem por parte de quem condiciona a ajuda económica à actuação de políticas contrárias à vida. Sobretudo a SIDA, dramática causa de pobreza, é difícil combatê-la se não se enfrentarem as problemáticas morais associadas com a difusão do vírus. É preciso, antes de tudo, fomentar campanhas que eduquem, especialmente os jovens, para uma sexualidade plenamente respeitadora da dignidade da pessoa; iniciativas realizadas nesta linha já deram frutos significativos, fazendo diminuir a difusão da SIDA. Depois há que colocar à disposição também das populações pobres os remédios e os tratamentos necessários; isto supõe uma decidida promoção da pesquisa médica e das inovações terapêuticas e, quando for preciso, uma aplicação flexível das regras internacionais de protecção da propriedade intelectual, de modo que a todos fiquem garantidos os necessários tratamentos sanitários de base.
5. Terceiro âmbito, que é objecto de atenção nos programas de luta contra a pobreza e que mostra a sua intrínseca dimensão moral, é a pobreza das crianças. Quando a pobreza atinge uma família, as crianças são as suas vítimas mais vulneráveis: actualmente quase metade dos que vivem em pobreza absoluta é constituída por crianças. O facto de olhar a pobreza colocando-se da parte das crianças induz a reter como prioritários os objectivos que mais directamente lhes dizem respeito, como por exemplo os cuidados maternos, o serviço educativo, o acesso às vacinas, aos cuidados médicos e à água potável, a defesa do ambiente e sobretudo o empenho na defesa da família e da estabilidade das relações no seio da mesma. Quando a família se debilita, os danos recaem inevitavelmente sobre as crianças. Onde não é tutelada a dignidade da mulher e da mãe, a ressentir-se do facto são de novo principalmente os filhos.
6. Quarto âmbito que, do ponto de vista moral, merece particular atenção é a relação existente entre desarmamento e progresso. Gera preocupação o actual nível global de despesa militar. É que, como já tive ocasião de sublinhar, « os ingentes recursos materiais e humanos empregados para as despesas militares e para os armamentos, na realidade, são desviados dos projectos de desenvolvimento dos povos, especialmente dos mais pobres e necessitados de ajuda. E isto está contra o estipulado na própria Carta das Nações Unidas, que empenha a comunidade internacional, e cada um dos Estados em particular, a ‘‘promover o estabelecimento e a manutenção da paz e da segurança internacional com o mínimo dispêndio dos recursos humanos e económicos mundiais para os armamentos'' (art. 26) ».
Uma tal conjuntura, longe de facilitar, obstaculiza seriamente a consecução dos grandes objectivos de desenvolvimento da comunidade internacional. Além disso, um excessivo aumento da despesa militar corre o risco de acelerar uma corrida aos armamentos que provoca faixas de subdesenvolvimento e desespero, transformando-se assim, paradoxalmente, em factor de instabilidade, tensão e conflito. Como sensatamente afirmou o meu venerado antecessor Paulo VI, « o desenvolvimento é o novo nome da paz ».(7) Por isso, os Estados são chamados a fazer uma séria reflexão sobre as razões mais profundas dos conflitos, frequentemente atiçados pela injustiça, e a tomar providências com uma corajosa autocrítica. Se se chegar a uma melhoria das relações, isso deverá consentir uma redução das despesas para armamentos. Os recursos poupados poderão ser destinados para projectos de desenvolvimento das pessoas e dos povos mais pobres e necessitados: o esforço despendido em tal direcção é um serviço à paz no seio da família humana.
7. Quinto âmbito na referida luta contra a pobreza material diz respeito à crise alimentar actual, que põe em perigo a satisfação das necessidades de base. Tal crise é caracterizada não tanto pela insuficiência de alimento, como sobretudo pela dificuldade de acesso ao mesmo e por fenómenos especulativos e, consequentemente, pela falta de um reajustamento de instituições políticas e económicas que seja capaz de fazer frente às necessidades e às emergências. A má nutrição pode também provocar graves danos psicofísicos nas populações, privando muitas pessoas das energias de que necessitam para sair, sem especiais ajudas, da sua situação de pobreza. E isto contribui para alargar a distância angular das desigualdades, provocando reacções que correm o risco de tornar-se violentas. Todos os dados sobre o andamento da pobreza relativa nos últimos decénios indicam um aumento do fosso entre ricos e pobres. Causas principais de tal fenómeno são, sem dúvida, por um lado a evolução tecnológica, cujos benefícios se concentram na faixa superior da distribuição do rendimento, e por outro a dinâmica dos preços dos produtos industriais, que crescem muito mais rapidamente do que os preços dos produtos agrícolas e das matérias primas na posse dos países mais pobres. Isto faz com que a maior parte da população dos países mais pobres sofra uma dupla marginalização, ou seja, em termos de rendimentos mais baixos e de preços mais altos.

Luta contra a pobreza e solidariedade global

8. Uma das estradas mestras para construir a paz é uma globalização que tenha em vista os interesses da grande família humana.(8) Mas, para guiar a globalização é preciso uma forte solidariedade global (9) entre países ricos e países pobres, como também no âmbito interno de cada uma das nações, incluindo ricas. É necessário um « código ético comum »,(10) cujas normas não tenham apenas carácter convencional mas estejam radicadas na lei natural inscrita pelo Criador na consciência de todo o ser humano (cf. Rm 2, 14-15). Porventura não sente cada um de nós, no íntimo da consciência, o apelo a dar a própria contribuição para o bem comum e a paz social? A globalização elimina determinadas barreiras, mas isto não significa que não possa construir outras novas; aproxima os povos, mas a proximidade geográfica e temporal não cria, de per si, as condições para uma verdadeira comunhão e uma paz autêntica. A marginalização dos pobres da terra só pode encontrar válidos instrumentos de resgate na globalização, se cada homem se sentir pessoalmente atingido pelas injustiças existentes no mundo e pelas violações dos direitos humanos ligadas com elas. A Igreja, que é « sinal e instrumento da íntima união com Deus e da unidade de todo o género humano »,(11) continuará a dar a sua contribuição para que sejam superadas as injustiças e incompreensões e se chegue a construir um mundo mais pacífico e solidário.
9. No campo do comércio internacional e das transacções financeiras, temos hoje em acção processos que permitem integrar positivamente as economias, contribuindo para o melhoramento das condições gerais; mas há também processos de sentido oposto, que dividem e marginalizam os povos, criando perigosas premissas para guerras e conflitos. Nos decénios posteriores à segunda guerra mundial, o comércio internacional de bens e serviços cresceu de forma extraordinariamente rápida, com um dinamismo sem precedentes na história. Grande parte do comércio mundial interessou os países de antiga industrialização, vindo significativamente juntar-se-lhes muitos países que sobressaíram tornando-se relevantes. Mas há outros países de rendimento baixo que estão ainda gravemente marginalizados dos fluxos comerciais. O seu crescimento ressentiu-se negativamente com a rápida descida verificada, nos últimos decénios, nos preços dos produtos primários, que constituem a quase totalidade das suas exportações. Nestes países, em grande parte africanos, a dependência das exportações de produtos primários continua a constituir um poderoso factor de risco. Quero reiterar aqui um apelo para que todos os países tenham as mesmas possibilidades de acesso ao mercado mundial, evitando exclusões e marginalizações.
10. Idêntica reflexão pode fazer-se a propósito do mercado financeiro, que toca um dos aspectos primários do fenómeno da globalização, devido ao progresso da electrónica e às políticas de liberalização dos fluxos de dinheiro entre os diversos países. A função objectivamente mais importante do mercado financeiro, que é a de sustentar a longo prazo a possibilidade de investimentos e consequentemente de desenvolvimento, aparece hoje muito frágil: sofre as consequências negativas de um sistema de transacções financeiras – a nível nacional e global – baseadas sobre uma lógica de brevíssimo prazo, que busca o incremento do valor das actividades financeiras e se concentra na gestão técnica das diversas formas de risco. A própria crise recente demonstra como a actividade financeira seja às vezes guiada por lógicas puramente auto-referenciais e desprovidas de consideração pelo bem comum a longo prazo. O nivelamento dos objectivos dos operadores financeiros globais para o brevíssimo prazo reduz a capacidade de o mercado financeiro realizar a sua função de ponte entre o presente e o futuro: apoio à criação de novas oportunidades de produção e de trabalho a longo prazo. Uma actividade financeira confinada no breve e brevíssimo prazo torna-se perigosa para todos, inclusivamente para quem consegue beneficiar dela durante as fases de euforia financeira.
11. Segue-se de tudo isto que a luta contra a pobreza requer uma cooperação nos planos económico e jurídico que permita à comunidade internacional e especialmente aos países pobres individuarem e actuarem soluções coordenadas para enfrentar os referidos problemas através da realização de um quadro jurídico eficaz para a economia. Além disso, requer estímulos para se criarem instituições eficientes e participativas, bem como apoios para lutar contra a criminalidade e promover uma cultura da legalidade. Por outro lado, não se pode negar que, na origem de muitos falimentos na ajuda aos países pobres, estão as políticas vincadamente assistencialistas. Investir na formação das pessoas e desenvolver de forma integrada uma cultura específica da iniciativa parece ser actualmente o verdadeiro projecto a médio e longo prazo. Se as actividades económicas precisam de um contexto favorável para se desenvolver, isto não significa que a atenção se deva desinteressar dos problemas do rendimento. Embora se tenha oportunamente sublinhado que o aumento do rendimento pro capite não pode de forma alguma constituir o fim da acção político-económica, todavia não se deve esquecer que o mesmo representa um instrumento importante para se alcançar o objectivo da luta contra a fome e contra a pobreza absoluta. Deste ponto de vista, seja banida a ilusão de que uma política de pura redistribuição da riqueza existente possa resolver o problema de maneira definitiva. De facto, numa economia moderna, o valor da riqueza depende em medida determinante da capacidade de criar rendimento presente e futuro. Por isso, a criação de valor surge como um elo imprescindível, que se há- de ter em conta se se quer lutar contra a pobreza material de modo eficaz e duradouro.
12. Colocar os pobres em primeiro lugar implica, finalmente, que se reserve espaço adequado para uma correcta lógica económica por parte dos agentes do mercado internacional, uma correcta lógica política por parte dos agentes institucionais e uma correcta lógica participativa capaz de valorizar a sociedade civil local e internacional. Hoje os próprios organismos internacionais reconhecem o valor e a vantagem das iniciativas económicas da sociedade civil ou das administrações locais para favorecer o resgate e a integração na sociedade daquelas faixas da população que muitas vezes estão abaixo do limiar de pobreza extrema mas, ao mesmo tempo, dificilmente se consegue fazer-lhes chegar as ajudas oficiais. A história do progresso económico do século XX ensina que boas políticas de desenvolvimento são confiadas à responsabilidade dos homens e à criação de positivas sinergias entre mercados, sociedade civil e Estados. Particularmente a sociedade civil assume um papel crucial em todo o processo de desenvolvimento, já que este é essencialmente um fenómeno cultural e a cultura nasce e se desenvolve nos diversos âmbitos da vida civil.
13. Como observava o meu venerado antecessor João Paulo II, a globalização « apresenta-se com uma acentuada característica de ambivalência »,(14) pelo que há- de ser dirigida com clarividente sabedoria. Faz parte de tal sabedoria ter em conta primariamente as exigências dos pobres da terra, superando o escândalo da desproporção que se verifica entre os problemas da pobreza e as medidas predispostas pelos homens para os enfrentar. A desproporção é de ordem tanto cultural e política como espiritual e moral. De facto, tais medidas detêm-se frequentemente nas causas superficiais e instrumentais da pobreza, sem chegar às que se abrigam no coração humano, como a avidez e a estreiteza de horizontes. Os problemas do desenvolvimento, das ajudas e da cooperação internacional são às vezes enfrentados sem um verdadeiro envolvimento das pessoas, mas apenas como questões técnicas que se reduzem à preparação de estruturas, elaboração de acordos tarifários, atribuição de financiamentos anónimos. Inversamente, a luta contra a pobreza precisa de homens e mulheres que vivam profundamente a fraternidade e sejam capazes de acompanhar pessoas, famílias e comunidades por percursos de autêntico progresso humano.

Conclusão

14. Na Encíclica Centesimus annus, João Paulo II advertia para a necessidade de « abandonar a mentalidade que considera os pobres – pessoas e povos – como um fardo e como importunos maçadores, que pretendem consumir tudo o que os outros produziram ». « Os pobres – escrevia ele – pedem o direito de participar no usufruto dos bens materiais e de fazer render a sua capacidade de trabalho, criando assim um mundo mais justo e mais próspero para todos ». No mundo global de hoje, resulta de forma cada vez mais evidente que só é possível construir a paz, se se assegurar a todos a possibilidade de um razoável crescimento: de facto, as consequências das distorções de sistemas injustos, mais cedo ou mais tarde, fazem-se sentir sobre todos. Deste modo, só a insensatez pode induzir a construir um palácio dourado, tendo porém ao seu redor o deserto e o degrado. Por si só, a globalização não consegue construir a paz; antes, em muitos casos, cria divisões e conflitos. A mesma põe a descoberto sobretudo uma urgência: a de ser orientada para um objectivo de profunda solidariedade que aponte para o bem de cada um e de todos. Neste sentido, a globalização há-de ser vista como uma ocasião propícia para realizar algo de importante na luta contra a pobreza e colocar à disposição da justiça e da paz recursos até agora impensáveis.
15. Desde sempre se interessou pelos pobres a doutrina social da Igreja. Nos tempos da Encíclica Rerum novarum, pobres eram sobretudo os operários da nova sociedade industrial; no magistério social de Pio XI, Pio XII, João XXIII, Paulo VI e João Paulo II, novas pobrezas foram vindo à luz à medida que o horizonte da questão social se alargava até assumir dimensões mundiais.(16) Este alargamento da questão social à globalidade não deve ser considerado apenas no sentido duma extensão quantitativa mas também dum aprofundamento qualitativo sobre o homem e as necessidades da família humana. Por isso a Igreja, ao mesmo tempo que segue com atenção os fenómenos actuais da globalização e a sua incidência sobre as pobrezas humanas, aponta os novos aspectos da questão social, não só em extensão mas também em profundidade, no que se refere à identidade do homem e à sua relação com Deus. São princípios de doutrina social que tendem a esclarecer os vínculos entre pobreza e globalização e a orientar a acção para a construção da paz. Dentre tais princípios, vale a pena recordar aqui, de modo particular, o « amor preferencial pelos pobres », à luz do primado da caridade testemunhado por toda a tradição cristã a partir dos primórdios da Igreja (cf. Act 4, 32-37; 1 Cor 16, 1; 2 Cor 8-9; Gal 2, 10).
« Cada um entregue-se à tarefa que lhe incumbe com a maior diligência possível » – escrevia em 1891 Leão XIII, acrescentando: « Quanto à Igreja, a sua acção não faltará em nenhum momento ». Esta consciência acompanha hoje também a acção da Igreja em favor dos pobres, nos quais vê Cristo, sentindo ressoar constantemente em seu coração o mandato do Príncipe da paz aos Apóstolos: « Vos date illis manducare – dai-lhes vós mesmos de comer » (Lc 9, 13). Fiel a este convite do seu Senhor, a Comunidade Cristã não deixará, pois, de assegurar o seu apoio à família humana inteira nos seus impulsos de solidariedade criativa, tendentes não só a partilhar o supérfluo, mas sobretudo a alterar « os estilos de vida, os modelos de produção e de consumo, as estruturas consolidadas de poder que hoje regem as sociedades ».(20) Assim, a cada discípulo de Cristo bem como a toda a pessoa de boa vontade, dirijo, no início de um novo ano, um caloroso convite a alargar o coração às necessidades dos pobres e a fazer tudo o que lhe for concretamente possível para ir em seu socorro. De facto, aparece como indiscutivelmente verdadeiro o axioma « combater a pobreza é construir a paz ».

Vaticano, 8 de Dezembro de 2008.

BENEDICTUS PP. XVI

Dia 03 - Memória do Beato Ciriaco Elias Chavara - presb.



O beato Ciríaco Elias Chavara, co-fundador e primeiro prior geral da Congregação dos Carmelitas de Maria Imaculada, nasceu em Kainakary, localidade do Estado de Kerala (Índia), no dia 10 de fevereiro de 1805. Ingressou no seminário em 1818. Ordenou-se sacerdote em 1829. Fundou o primeiro convento da congregação em Mannanam em 1831. Emitiu os votos religiosos em 1855. Colaborou, também, na fundação do Instituto das Irmãs da Mãe do Carmelo em 1866. Foi vigário geral da Igreja sírio-malabar desde 1861. Opôs-se, como campeão da unidade eclesial, ao cisma de Mar Rokos. Dedicou sua vida inteira à renovação espiritual da comunidade cristã sírio-malabar. Foi, antes de tudo, um homem de oração. Sentiu um ardente amor a Jesus sacramentado. Professou uma especial devoção à Virgem Maria Imaculada. Entregou sua alma a Deus em Koonammavu em 1871. Seus restos mortais foram transladados para Mannanam em 1889.

Deus também pode chamar ao sacerdócio pela internet

ROMA, quarta-feira, 24 de dezembro de 2008 (ZENIT.org).- No último domingo antes do Natal, Bento XVI cumprimentou os 49 novos sacerdotes legionários de Cristo que acabam de ser ordenados. Alguns irmãos na congregação religiosa publicaram um vídeo que teve um êxito inesperado no Youtube e em H2onews.org, e nele oferecem os motivos pelo qual decidiram tornar-se sacerdotes.
No vídeo intervêm com espontaneidade e um pouco de humor seminaristas procedentes de culturas e países tão diferentes como a França, Alemanha, México, República Checa, Colômbia, Áustria, Coréia, Itália, Brasil, Vietnã, Espanha e Estados Unidos.
O vídeo foi lançado junto a um site, disponível em cinco idiomas (espanhol, inglês, alemão, italiano e francês), no qual é possível fazer consultas e manifestar inquietudes sobre a vocação, às quais se responderá através de um e-mail.

Mais informação: www.whynotpriest.org
Fonte: zenit.com

Notícias .....


Neste últimos dias nossa família carmelitana foi abalada com a perda da irmã do Frei Paulo Henrique, Liliane Aparecida, no dia 20 de dezembro e do Frei Odair Madero que perdeu sua irmã Elisabete, no dia 24 de dezembro. Rezemos por suas famílias para que o Deus da vida possa confortá-los neste momento de dor e possa acolher em seu seio misericordioso as irmãs dos nossos confrades .
Juntos em oração peçamos por eles.

Mensagem do nosso Provincial


Caríssimos/as:

Durante este ano muitas coisas aconteceram...
Um acontecimento continua sendo o sustento de todos os outros:
Deus em seu amor infinito e a
cada acontecimento confere um sentido novo
em Jesus,
Deus Conosco,
nascido em Belém para nos salvar. Agradeço pela presença de cada um de vocês.

Desejo a você e aos seus um santo Natal.
E
um feliz ano Novo, vivido na certeza do indefectível amor de Deus!


--
fr. Alzinir

Semana de Convivência Vocacional Carmelitana

Durante a semana que passou 13 jovens de diversos lugares do Brasil estiveram em Caratinga juntamente com a equipe de promoção vocacional da Província São José, no intuito de que alguns, depois da experiência de serem acompanhados por um ano,fossem convidados para ingressar no aspirantado,iniciando assim a sua vida formativa na Vida Religiosa. Destes jovens seis foram aprovados: José Augusto, de Itapetininga, o Wesley, de Votorantin, o Emanuel e o Helder, de Três Pontas, o Davi, de Rio Pomba e o Dyhego, de Nova Serrana. Alem destes jovens temos mais 4 jovens do nordeste já aprovados e mais alguns que ainda serão avaliados no intuito de serem recebidos em nossa família religiosa.
Aguardemos as fotos deste semana emocionante.

Três jovens recebem o habito carmelita para iniciar o noviciado

No dia 15 de Dezembro de 2008, os postulantes Demétrius, Athos e Fabrício, iniciaram seu noviciado, tempo em que assumem de forma mais profunda a experiência de vida religiosa no Carmelo. O rito de iniciação foi presidido pelo Frei Alzinir na oração das Laudes. Após a vestição com o hábito religioso, os postulantes passaram a chamar-se Frei Athos da Santíssima Trindade, Frei Demetrius da Misericórdia Divina e Frei Fabrício do Divino Amor.

Um momento da vestição: a bênção dos hábitos



De pé: Frei Fabiano, Frei Wilsom, Frei Edinaldo, Frei Alzinir, Frei Cleber, Frei Edglê, Frei Afonso, Frei Joilde, Frei Aurílio e Frei João de Deus. Agachados: os novos noviços

1ª Profissão de nossos irmão em Piedade de Caratinga



A Província renasce no dia de Santo Padre

Dia 14 de dezembro comemora-se o Pai Fundador da Ordem, São João da Cruz. Quase como homenagem ao primeiro carmelita descalço, já de alguns anos, ao redor das festas sanjuanistas, em nossa Província realizam-se os compromissos e votos de nossos formandos. Este ano todos se encontraram em Caratinga e Piedade de Caratinga - MG.
As festas começaram no dia 13 no convento de Caratinga. Às 19 horas os freis Emerson, Salim e Luciano emitiram seus votos solenes na Ordem.
No dia 14, às 7 h e 15 m, os 15 estudantes de filosofia e teologia renovaram sua profissão.
No mesmo dia 14, às 17:30 h os 5 noviços que completaram seu ano de prova na Ordem fizeram sua primeira profissão. em uma belíssima celebração presidida pelo provincial Frei Alzinir na capela Nossa Senhora da Piedade, em Piedade de Caratinga/MG, os noviços: Frei Julierme da Redenção, Frei Carlos Maria do Redentor, Frei José Gregório da Mãe de Deus, Frei Fábio dos Corações de Jesus e Maria e Frei Alexandre Maria da Ressurreição, consagraram-se a Deus pelos votos religiosos de pobreza, castidade e obediência. Compareceram nesta celebração os seus familiares, vindos de diversos lugares como: Natal/RN, Olinda/PE, Teresina/PI, São José dos Campos/SP, e Juiz de Fora/MG; alguns frades da província, entre outros convidados. Após a cerimônia houve um jantar de comemoração no noviciado São José.

11 de dezembro - Memória de Santa Maravilhas de Jesus



Maria de las Maravillas de Jesus Pidal y Chico de Guzmán nasceu em Madrid no ano 1891. Entrou nas Carmelitas Descalças de El Escorial, Madrid (Espanha) no dia 12 de Outubro de 1919. Em 1924, movida por uma inspiração divina, fundou um Carmelo no “Cerro de los Ángeles” (o centro geográfico de Espanha), junto ao monumento do Coração de Jesus,. A esta fundação seguiram-se outras nove na sua pátria e uma na Índia. Concedeu sempre a primazia à oração e à imolação. Tinha verdadeira paixão e zelo pela glória de Deus e pela salvação das almas. A partir da clausura, e vivendo uma vida pobre, socorreu os necessitados, fomentando iniciativas apostólicas e obras sociais e caritativas. Ajudou de modo particular a sua Ordem, os sacerdotes e diversas congregações religiosas. Morreu com 83 anos no mosteiro de La Aldehuela (Madrid) no dia 11 de Dezembro de 1974. Foi beatificada a 10 de Maio de 1998 e canonizada no dia 4 de Maio de 2003 por João Paulo II.

Dia 14 de dezembro - Solenidade de São da Cruz


Frei João da Cruz, alma transformada em Deus, sentiu como ninguém o sopro carismático da poesia, esse sopro misterioso que estremece as entranhas do espírito com a violência de uma invasão divina. Toda poesia é uma dádiva de graça e amor. A de São João da Cruz é além disso uma mensagem divina: descobrir Deus nas criaturas, contemplá-las "vestidas de sua formosura", surpreender a "passagem" de Deus que vai "mil graças derramando" por onde quer que passe. Tudo isso é levar as coisas a Deus, sua fonte e princípio. Sublime missão sacerdotal da poesia de São João da Cruz!
O Santo dos "nadas", franzino e delicado de tanto mortificar-se, deixou escapar seu espírito, incapaz de contê-lo no limite reduzido de seu corpo pequeno, e do encontro de sua alma com Deus, presente em todas as coisas, brotou como uma "cristalina fonte" sua poesia: - que é evasão de si mesmo: "Onde é que te escondeste, / Amado, e me deixaste com gemido?"; - que é ferida de amor: "Oh! chama de amor viva / que ternamente feres!"; - que é vida: "Vivo sem viver em mim"; - que é posse de Deus.- "O rosto reclinado sobre o Amado, tudo cessou e deixei-me..."
Pedaços de uma alma encantadoramente terna e sublimemente divina. Versos que em sua maior parte nasceram da "solidão sonora" e dolorosa de Toledo (1577-1578). O corpo de Frei João sofria e se consumia, seu espírito, quase "rompida a teia" de sua vida, cantava a todas as coisas como pressagiando o abraço embriagante com Deus.
Os versos do santo carmelita em sua fragilidade virginal oferecem-nos "esboçados" - a palavra é apenas um reflexo de nosso interior - os "semblantes prateados" de seu espírito, de sua experiência mística, de sua vida divina. Como captar esse espírito e essa vida?
Só os corações puros podem sentir o "toque" do espírito sanjuanista, só os olhos límpidos podem intuir essa vida, que é mais vida de Deus que de São João da Cruz.
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Escritos espirituais
Suas poesias nos desvendaram timidamente - quiçá porque além não nos seria dado penetrar - o mistério da alma de São João da Cruz. Aqueles versos que, a princípio constituíram recreação espiritual e artística, converter-se-iam, com o correr do tempo, sob a inspiração do espírito que os havia vivido, nos grandes tratados ascético-místicos do sanjuanismo. Estes são todos encabeçados por uma poesia, que, às vezes, funciona como mero artifício externo (Subida e Noite), e outras, como síntese do tratado (Cântico e Chama). Historicamente, poesias e tratados se mesclam e entrelaçam na vida de São João da Cruz. Existem, também, outras obras menores, anteriores ou contemporâneas aos grandes escritos. Reunimos aqui ambos os grupos sob o título convencional de "Escritos Espirituais". Convencional porque tais são também as poesias e as cartas. Não obstante, gostaríamos, por um lado, de manifestar e resumir nele o que foi o magistério espiritual de São João da Cruz, e, por outro, expressar, de algum modo, um tipo literário particular e próprio; enquanto as poesias e as cartas são gêneros bem definidos, os demais escritos sanjuanistas em prosa, ainda que de valor e características muito diversas entre si, apresentam, contudo, uma tonalidade geral comum que os distingue claramente dos outros dois grupos. Todos eles ficam, pois, compreendidos sob esse título tão flexível de "Escritos Espirituais".
O magistério de São João da Cruz é vasto, profundo, assume numerosas facetas; o que começou sendo um sussurro de confessionários e locutórios ou entretenimentos e leituras a meia voz nos mosteiros e conventos carmelitanos, converteu- se em voz altissonante, a ressoar por toda a terra. A doutrina de São João da Cruz é evangélica: clara, direta, desassombrada. Seus famosos "nadas", que os espíritos fracos tanto abominam, são lógica levada às últimas conseqüências, com a lógica das leis divinas, que jamais claudicam. É teologal: a fé, a esperança e a caridade nunca atingiram uma valorização espiritual tão profunda como nos escritos de São João da Cruz. Nisto é evangélico e paulino.
As virtudes, que são a posse de Deus, não podem coexistir com o que não é Deus: o vazio do criado é a base da plenitude do Criador. Os nadas não são sombrios, porque são, ao mesmo tempo, abundância, gozo, tudo. São João da Cruz insiste tenazmente neles, porque são poucos os que se sentem com forças para aceitá-los. Porém somente por essa senda é que se chega ao festim sagrado, ao cimo do monte. Cumpre atravessar as noites passivas e ativas do sentido e do espírito (Subida e Noite) para chegar à radiosa e meridiana luz da vida de união (Cântico e Chama). Existe, pois, uma íntima unidade literária e doutrinal entre as obras de São João da Cruz, principalmente nas maiores. Compostas quase integralmente no lustro 1582-1585, fecundíssimo do ponto de vista literário, uma mestria sorte as nivelou; enquanto subida e Noite ficavam incompletas, Cântico e .Chama, pelo contrário, foram redigidos duas vezes.
Os diversos escritos aqui reunidos constituem outras tantas formas de apostolado espiritual. Há unta grande diferença entre a primeira representação gráfica do Monte, os conselhos e sentenças em forma de bilhetes, os tratados breves e as obras mestras. Porém, em todos eles perpassa um sanjuanismo límpido endereçado às grandes almas.
É isso o que pretende significar o esquema seguinte, que, partindo das composições não tão essenciais (tais como os Ditames de espírito, recolhidos e transmitidos indiretamente por testemunhas oculares) e prosseguindo pelos escritos propriamente do Santo, segundo uma ordem lógica e cronológica, pretende dar unidade ao múltiplo e variado magistério de São João da Cruz.