sábado, 3 de julho de 2010

Artigo testemunho da experiência no Monte sagrado, de Fr. Patrício Sciadini, enviado da Província ao Cairo, Egito.







SEMPRE gostei de Moisés, o escolhi como meu protetor e guia na minha vida de carmelita e de sacerdote. O seu estilo, sua vida, suas palavras, suas resistências ao chamado de Deus, as suas desculpas esfarrapadas para dizer “não” ao projeto de Deus que através dele quer libertar o povo, tocam profundamente o coração dos que se aventuram a ler o Êxodo com olhos de fé. Para quem busca a Deus na vida contemplativa Moises se torna ainda mais querido, é o modelo de todos os que têm sede de Deus e o buscam com sinceridade, desafiam o mesmo silêncio e se adentram nos desertos da vida, ou escalam as montanhas, ou mergulham na noite para poder encontrar-se face a face com o mistério.
Jamais teria pensado que um dia subiria a montanha do Sinai e contemplaria a sarça que, segundo a tradição dos monges gregos do mosteiro de Santa Catarina de Alexandria, situados ao pé do monte, continua a mesma, desde então. Uma sarça amada, custodiada com amor e que todos os peregrinos contemplam com amor e oram extasiados. Subir o monte Sinai é uma aventura que nos deixa sem respiro. Hoje em dia se pode fazer uma parte da subida de camelo, mas a última parte deve ser feita a pé. Não há estrada, não há atalho, é rocha pura, dura, difícil, em que as pedras como facas podem furar de uma hora para outra os seus sapatos; onde o cansaço lhe obriga, de vez em quando, a parar e sentar-se para olhar o vale embaixo. Quem tiver vertigem é um perigo. Depois se continua a marcha lenta com o coração batendo forte, a respiração lenta até que se chega lá em cima.
Um caminho que nos tira toda a vontade de falar, de gritar, só o silencio entra a fazer parte da vida de quem tem fé. Mesmo circundado por tanta gente que foi ao cume do monte por finalidade diferente - passeios, curiosidade – quem tem fé não sabe o que dizer a não ser deixar o olhar perder-se no grande vale e nos montes sem uma árvore, sem nada que circunda, do pico do monte Sinai. E sentir que aí Deus um dia longínquo chamou Moises sozinho, fez-lhe deixar o povo-rebanho lá embaixo ao pé do monte e exigiu que ele, sozinho, sem ninguém, subisse até o cimo do monte, porque tinha necessidade de falar-lhe. E Moises obedeceu, subiu. Quanto tempo gastou? Como devia bater o seu coração? O que esperava encontrar no cimo do monte, o que Deus quereria dele?
Imagino que estas perguntas angustiantes deviam se agitar no coração de Moises. E Deus cobriu com seu poder, como diz a bíblia, o cimo da montanha e falou através de relâmpagos, trovões, tempestade, e falou forte, pesado, contra o seu povo de cabeça dura, que não queria mais ser libertado e preferia voltar a comer as cebolas do Egito.
Deus, no seu amor, como diz a bíblia, escreveu “com seu dedo” as dez palavras sobre duas tábuas de pedra e as entregou a Moises para que ele as levasse para o povo e comunicasse a vontade de Deus. Nunca entendi tão bem o amor de Deus que deu os mandamentos como quando cheguei ao cimo do monte Sinai. Vi com olhos novos a glória de Deus, vi os mandamentos como reflexos luminosos da beleza da eternidade e do amor. No silêncio li e reli os mandamentos de Deus e vi em cada palavra o amor de Deus Pai e me senti feliz por ser filho de Deus e por ter tido desde menino aprendido as dez palavras. O que posso dizer é: perdão Senhor, se por muito tempo achei que estas dez palavras tinham sabor mais de opressão que de amor! Foi preciso ferir os pés e chegar no cimo do Sinai para ver que tu és Pai!
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