sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Centenário da chegada dos Teresianos no Sudeste


Pequeno histórico da chegada dos frades Carmelitas Descalços no Sudeste do Brasil

6. Cambuí e região: a messe é grande


O convento-sede da missão brasileira dos frades da Província Romana instala-se em Córrego, no dia 2 de abril de 1911. Mas a Paróquia principal localizava-se na sede do município, Cambuí, de onde Córrego era distrito. Logo após a chegada dos frades D. Assis dá provisão de Pároco de Nossa Senhora do Carmo de Cambuí ao frei Marcelino de Santa Teresa.



a) A cidade e a Paróquia de Cambuí





A Cidade de Cambuí nasceu como uma parada entre Camanducaia e Pouso Alegre, e recebeu este nome devido as árvores que povoavam as margens do Rio das Antas. Seu nome significa "a planta ou a folha que se desprende". Nos longínquos anos de 1787 já existem relatos sobre lugarejos denominados "Rio do Peixe" e "Roseta" - sendo que o nome Cambuí aparece pela primeira vez no ano de 1789 num livro de batismos da Paróquia de Camanducaia. De fato, Camanducaia, antes chamado Jaguari, foi o antigo povoado a qual pertencia Cambuí.

A região dia-a-dia se torna mais povoada, até que, por iniciativa do Capitão Francisco Soares de Figueiredo, nascido em Portugal e radicado em Campanha, e com a doação de um terreno pelo Capitão Joaquim José de Moraes e sua esposa, a Sra. Isabel Pinheiro Cardoso, é erigida uma capela em homenagem a Nossa Senhora do Carmo no lugar hoje denominado "Cambuí - Velho".
A localidade, no entanto, vai se desenvolvendo, e a igreja começa a sofrer o desgaste do tempo. As casas, feitas de taipa e adobe, são erigidas de modo desorganizado e o lugar é de acesso muito difícil.
Tendo em vista estas dificuldades, em agosto de 1834 é levado um documento à Cúria de São Paulo, pedindo autorização para a construção de outra capela num lugar melhor - onde hoje se situa a igreja matriz. Concedida à licença e após ser construída a igreja, é feita a mudança dos habitantes - que fazem uma procissão rumo à terra do Novo Cambuí.

Com a mudança, Cambuí se desenvolve e em 1850 o pequeno Curato de Camanducaia é declarado Paróquia - confirmando a autonomia da organização eclesiástica. Cambuí se mantém influente na região. Tem em pleno século dezenove, com as dificuldades do transporte, duas bandas de música, revelando sua inclinação às artes e à cultura que viriam a ter os cambuienses. Além disso, com o desaparecimento do Capitão Soares em 1864, assume o comando da freguesia o Tenente Coronel Francisco Cândido de Brito Lambert, também vindo de Campanha, que logo ocupa a Presidência da Câmara Municipal de Camanducaia mostrando o prestígio político dos habitantes de Cambuí.


Cambuí cresce e se desenvolve. Comerciantes, sapateiros, fazendeiros, tropeiros aquecem o cenário local até que em 24 de maio de 1892 Cambuí se torna cidade confirmando sua independência política.


Após a emancipação de Cambuí em 1892, seus habitantes liderados pelas figuras de José Alexandre de Moraes, Capitão Zeferino de Brito Lambert, Padre José da Silva Figueiredo Caramuru, Capitão Antonio José de Brito Lambert e Antonio Evaristo de Brito dão início à adaptação do novo município. A cidade, que também é elevada a Comarca prospera a cada dia. Abarcando os municípios de Senador Amaral, Bom Repouso e Córrego do Bom Jesus, tendo uma vida cultural intensa.


b) Frei Marcelino de Santa Teresa - Pároco de uma cidadezinha que cresce aos poucos


A Paróquia de Nossa Senhora do Carmo de Cambuí foi fundada em 1850, o que marcou também a emancipação do município. Com a chegada dos Carmelitas em 1911 fr. Marcelino assume a Paróquia.


Fr. Marcelino de Santa Teresa (Henrique Dorelli) nasceu em Roma no dia 25 de agosto de 1864. Professou na Ordem no dia 28 de agosto de 1883 e no dia 21 de setembro de 1889 foi ordenado sacerdote. Depois de ordenado foi professor de filosofia no Colégio da Província Romana de Caprarola e em 1900 (24 de novembro) foi nomeado pela Sagrada Congregação de Propaganda da Fé como Missionário Apostólico. Em 1911 se une aos primeiros missionários que vêem ao Brasil e assume, logo na sua chegada, a Paróquia de Cambuí.



Fr. Marcelino empenha todo o seu zelo pelas almas aos seus cuidados nos três anos que ficou à frente da Paróquia, sem deixar de participar dos atos de sua nova comunidade, fixada em Córrego. A distância entre a cidade de Cambuí e o distrito de Córrego é pequena, uns 15 quilômetros e o frade vive entre as duas cidades e o grande campo missionário em torno de Cambuí, formado por pequenas capelas privadas nas muitas fazendas e pequenos povoados espalhados pela região montanhosa.


m 1911 a Praça da Matriz era um descampado de terra, cercado de arame farpado. Não havia uma única árvore para amenizar o calor. A Igreja, modesta, possuía um torre solitária que fazia sombra a imagem do Cristo que chamava os fiéis a frente de sua porta principal. Ao lado da Igreja, funcionava o Mercado Municipal. Em uma das primeiras imagens da cidade de Cambuí, provavelmente do início do século XX, observa-se no seu ponto mais alto a presença dominante de uma pequena igreja constituídade dois corpos em planta retangular, com cobertura em telhado de duas águas. Nessa época, no entorno da igreja já estava delimitada a praça principal, composta de edificações da primeira geração da cidade, que compreende o período entre a sua fundação e meados da década de 1930. Nas edificações desse período utilizavam-se o sistema construtivo denominado “pau a pique”, fundações corridas de pedra, telhas de barro “tipo colonial”, largos assoalhos, portas e janelas de madeira de grandes dimensões. Observa-se também nessa época a presença de lotes arborizados de grandes dimensões no seu sentido longitudinal. As edificações e lotes de Cambuí tinham então características urbanas e arquitetônicas do Brasil – Colônia.


Mesmo sendo tão pequena e pacata, Cambuí possuía um jornal semanal, chamado Correio do Povo e editado pelo Dr. Dráuzio de Alcântara e José Alexandre de Moraes. Dele, restam apenas 2 exemplares conhecidos: de dezembro de 1911 e julho de 1912, então em seu número 37, justamente nos dois primeiros anos do curato de fr. Marcelino.

Fr. Marcelino e o novo cinema na cidade


Em 1912 inaugura-se na cidade de Cambuí o seu primeiro cinema. Não se pode precisar sua inauguração, mas ocorreu antes desta data, 14 de Julho de 1912. Funcionava no largo atrás da Igreja Matriz, onde funcionava o mercado. O Recreio Cinema era de propriedade do Major José Luiz Tavares da Silveira, farmacêutico formado em Ouro Preto, na época capital de Minas Gerais, antigo Juiz de Paz e presidente da Câmara Municipal no século XIX. Em 1912, o acesso a Cambuí era por caminhos de tropas de burros. Uma viagem levava dias, enfrentando lama e cansaço. Poucas pessoas, àquela época, conheciam outros lugares exceto a própria cidade. O cinema era uma porta para o mundo para aquela gente e trouxe novidades para a cidade. Naquele tempo, o cinema era o grande propagador de imagens, e as pessoas somente poderiam conhecer a Pérsia e outros lugares exóticos no cinema, além da própria cidade de São Paulo e do Rio de Janeiro, a Capital Federal. Fr. Marcelino se vê nesta situação. No jornal "A Montanha", de 30/02/49 Levindo Lambert nos conta:


"A inauguração do cinema foi um acontecimento de grande ressonância em Cambuí e seus arredores. Instalara-o uma empresa, de que era presidente o saudoso farmacêutico José Luiz Tavares da Silveira. Os trabalhos técnicos foram feitos pela inteligência brilhante de João Batista Corrêa, mais tarde substituído pelo não menos inteligente Lázaro Silva. Não havia luz elétrica na cidade. Um motor a gasolina produzia a luz interna e externa e acionava o projetor. A banda de Música do Zeca Preto rompia um dobrado nos confins da Rua Coronel Lambert e marchava para o cinema arrastando já um punhado de assistentes. A Igreja se esvaziava e Frei Marcelino Dorelli, carmelita descalço, pregava zangado: - Calígula tinha um cavalo chamado Incitatus. Elegeu o cavalo Senador de Roma e dava banquetes, comidas finas e bebidas gostosas. Mas o cavalo relinchava e pateava quando via um feixe de alfafa. E concluiu cheio de humor: O Povo de Cambuí é como o cavalo de Calígula: deixa a Igreja para procurar o Cinema... Não adiantava a arenga do frade ingênuo e bom. O povo largava a reza e acompanhava mesmo a Banda de Música, a caminho do cinema."


Cambuí, àquela época, não tinha energia elétrica. a aquisição de gerador potente para a iluminação pública, particular e urbana. E isso foi feito, com algum êxito. A luz era dada aos usuários e logradouros até às 23 horas. Esse sistema perdurou até 1924.


c) A Matriz de Nossa Senhora do Carmo












No ano seguinte ao início de seu pastoreio, Fr. Marcelino dá início à reforma da Matriz de Nossa Senhora do Carmo, no dia 8 de setembro de 1912. A igreja construída pelo Capitão Soares, um dos fundadores da cidade, apresenta em uma das suas imagens mais antigas as seguintes características: frontispício simples, com uma portada com verga reta sobreposta por cinco janelas, encimada por um frontão triangular marcado por quatro pináculos na sua base e uma pequena escultura em forma de uma ave no vértice. Do lado direito da igreja havia uma pequena torre sineira, mais baixa que o frontispício, com sua parte superior vazada e coberta por um telhado em forma piramidal. Na frente, na sua parte mediana, foi instalada uma cruz de madeira e no seu lado direito foi construído um coreto em forma octogonal, com estrutura também de madeira.


Fr. Marcelino inicia a reforma da antiga igreja que os párocos posteriores terminam antes de 1920, dando lugar a uma outra em estilo neogótico. Essa igreja tinha no primeiro pavimento dois nichos laterais em arco e uma pequena escada que dava acesso a uma porta central em arco pleno, sobreposto por um outro arco ogival. O segundo pavimento era composto de dois pares de vitrais laterais em arcos encimados por arcos ogivais, tendo no seu centro uma porta de madeira, também em arco com balaustrada. Na fachada principal da igreja existia uma torre central de base quadrangular, com uma janela em arco na sua fachada principal. O coroamento da torre era em forma de pirâmide, assentada sobre a terminação triangular das suas fachadas. Na frente da igreja foi implantada uma escultura representando o Cristo sobre uma base em forma de paralelepípedo, com o globo terrestre em uma das mãos. A reforma da igreja foi acompanhada de obras de urbanização da praça.



d) Despedida de Fr. Marcelino


Em 1913 Fr. Marcelino contrai a malária e é obrigado a retornar a Roma. Habita no convento de Santa Maria della Scala onde trabalha na investigação histórica da Província Romana. Em 20 de fevereiro de 1946 falece na cidade eterna. Seu substituto na Paróquia de Cambuí foi fr. Mauro de São José, que assumiu a Paróquia de 1913 a 1914.


e) Uma terceira Paróquia


No final do mês de maio de 1911, portanto no mês seguinte á chegada dos frades na região de Cambuí, D. Assis pede que os frades assumam também a Paróquia de Jaguari. Fr. Mauro de São José foi indicado para assumí-la e chega a receber a provisão do Sr. Bispo. Mas o Pároco local, Cônego Saturnino de Paula Conceição, não aceita a nomeação nem sua transferência, e D. Assis então pede que Fr. Mauro assuma uma outra Paróquia: a de Capivari do Paraíso e Bom Retiro, que distava 18 quilômetros de Córrego. Frei Mauro assume a cura da comunidade e vai para lá duas vezes por mês para celebrar as Missas e administrar outros sacramentos. A situação em Capivari ficará assim pelos próximos anos, com a impossibilidade do Pároco de fixar residência por lá. No dia 10 de setembro de 1914 Frei Nicolau, frade que virá para a região na segunda leva de missionários que chega em 1912, assume a Paróquia no lugar de Fr. Mauro. Até 1916 ele partilha o trabalho pastoral naquela região com fr. Félix, fr. Anselmo e Fr. Jerônimo.

A situação, porém, vai ficando difícil, porque os frades começam a deparar-se com outros pedidos e fundações. Com todo o esforço dos frades a Paróquia de Capivari continua com uma assistência pequena e esporádica. Com a posse do novo bispo de Pouso alegre, D. Otávio Chagas de Miranda, no dia 29 de junho de 1916, o povo de Capivari lhe apresenta, em sua primeira visita pastoral à Paróquia no dia 19 de outubro, o pedido para um Pároco que seja residente. Na impossibilidade dos frades de poderem fundar ali um outro convento, D. Otávio indica um outro pároco para aquela comunidade e os frades, oficialmente, deixam os cuidados pastorais da Paróquia. No dia 20 de dezembro o Padre Lauro de Castro tomará posse em Capivari.
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