quinta-feira, 23 de abril de 2009

Uma vida escondida


















Na Jornada pro orantibus, um olhar sobre a clausura das Carmelitas, aparentemente longe do mundo, mas perto das pessoas


Um silêncio que não se aprecia, mas é provocador. Uma alegria que desconcerta. Uma luminosidade que entra pelas janelas do Carmelo de Fátima e que surpreende na espontaneidade dos gestos, dos sorrisos, do acolhimento. Uma certeza que se ganha e que surge como uma graça. Diz a Superiora do Carmelo de Fátima, a Irmã Cristina Maria que esta “é uma vida que só se compreende à luz da fé”.
Será o Carmelo de Fátima um convento para o século XXI? As Carmelitas descalças são seguramente pessoas do Século XXI. O tempo passa e trás coisas novas. Mas é esse mesmo tempo que dá também a resposta da vocação e constrói a família dentro do convento.
Carmelo significa "jardim". Conta a tradição que o profeta Elias se estabeleceu numa gruta, no Monte Carmelo, seguindo uma vida eremítica de oração e silêncio.
O silêncio e a oração humanas são iguais, mas encontram caminhos atuais.
O carisma de Santa Teresa de Jesus, reformadora das Carmelitas descalças, está vivo na Igreja, tal como esteve no século XVI, altura que ela viveu. “Mas tem que ter traduções e formas de se manifestar diferentes porque, obviamente, vivemos numa cultura diferente”, explica à Agência ECCLESIA a Irmã Cristina Maria.
Porque a vida se renova, não se pode pedir a uma pessoa que viva nas mesmas condições do Século XVI, mesmo sendo em clausura.
Mas o possível conforto “não retira em nada à vida de uma carmelita porque «os verdadeiros adoradores hão-de adorar o Pai em espírito e em verdade»”, recorda a Superiora.
“É este o culto que o Pai deseja e é este o caminho que nós levamos na adaptação aos novos tempos. O importante é que o nosso coração seja só dele. E procuremos que a nossa vida seja toda para Ele e para os irmãos”.
O estar longe e próximo
A vida de uma Carmelita é, tal como era no tempo da Santa Teresa, uma vida escondida, de clausura que não tem visibilidade.
“As pessoas não sabem o que estamos aqui a fazer porque não vêem nada de concreto”. Da oração não se faz eco. Mas é a oração que ecoa nas paredes do Carmelo.
“Fazemos muita psicoterapia às pessoas”. Ao Carmelo dirigem-se pessoas através de carta ou email, pessoas que pedem orações que chegam do mundo inteiro, uma comunicação facilitada através da Internet, a que as irmãs procuram responder “fazendo chegar uma palavra de conforto”.
“É muito bom quando podemos dar testemunho do que se vive dentro do Carmelo”, aponta a Irmã Cristina Maria. Os escritos não se esgotam no testemunho vivo que, em especial os jovens, portugueses e estrangeiros, procuram.
Há muitos que se dirigem ao locutório e por isso mesmo no novo Carmelo de Fátima, as irmãs decidiram fazer um locutório grande.
“Normalmente as pessoas querem saber o que é o Carmelo. Nessa altura «espraiamo-nos» à vontade e damos testemunho da nossa vida”, recorda a Superiora, sem esquecer que “a nossa missão é para ser vivida”.
A vida do Carmelo não é para ser explícita. “Entramos para o Carmelo mais para ser do que para dizer o que aqui se faz”.
Um mundo pequeno
Vive-se e morre-se no Carmelo. Só se vai para o hospital em situação extrema. Por isso, a parte superior do Carmelo, em Fátima, está preparada para tratar das irmãs que estão doentes.
Nas imediações do convento está o cemitério onde estão sepultadas as irmãs que moraram nas antigas instalações e onde, serão sepultadas as irmãs que agora habitam o novo Carmelo.
As 20 irmãs que ali vivem, com idades entre os 23 e os 83 anos, são todas muito diferentes, em culturas, em educação, em temperamento também.
“Cada uma veio de seu lado”, apesar de presentemente, se encontrarem no Carmelo muitas irmãs naturais de Lisboa.
“Conhecemo-nos muito bem, ajudamo-nos muito umas às outras”. Nem por isso é fácil, tal como no conceito comum de família.
Mas a Irmã Cristina explica que “a nossa oração é efetiva e eficaz na medida em que uma comunidade de carmelitas for uma comunidade de amor”. Por isso, nunca excedem as 21 religiosas no convento, “para que sejamos uma comunidade familiar”.
Também neste processo se vive a entrega, do passar por cima, de quebrar fronteiras e barreiras psicológicas que cada uma possa ter. “Tudo isto acaba por tornar a comunidade terapêutica, mas também fecunda na nossa oração”, pois, explica a Superiora, “a nossa oração só é verdadeira se eu amar a minha irmã que está aqui perto de mim”.
Entrar no Carmelo
A faixa etária das irmãs no Carmelo mostra que a vivência é alegre e cativa as gerações mais novas. Neste momento, a comunidade conta com uma postulante, que assim se identifica orgulhosamente.
“Claro que se encontra um testemunho de vida alegre e a pessoa tem de fato essa vocação, ela desabrocha mais facilmente, porque provavelmente percebe um eco dentro de si como algo verdadeiro”, explica a Irmã Cristina.
Mas só se entra para o Carmelo “quando há vocação”.
As pessoas percebem que é uma vida que tem um “esquema muito particular” e uma vocação ao Carmelo, “nunca é uma vocação que se abrace de ânimo leve”. Uma candidata que mostre desejo de entrar no Carmelo, “nunca entra a correr”. Há tempos de prova.
“Não é possível sequer agüentar uma pessoa no Carmelo, que entra aqui por razões de desgosto ou insatisfação com o mundo. A certa altura não agüenta e facilmente perde a força para continuar”.
O processo de discernimento é acompanhado sempre por um sacerdote, ao mesmo tempo que a candidata mantém contacto com a irmãs. “Este intercâmbio ajuda a tomar consciência e a amadurecer a sua decisão”.
Se depois deste processo, a decisão de entrar no Carmelo continua, a candidata faz então uma experiência junto das irmãs.
“Gostamos que elas façam uma experiência de um mês”. Uma oportunidade para ver a vida carmelita e perceber como se sentem. No final, saem das paredes do Carmelo, para um novo período de reflexão e discernimento. Se ainda acharem que querem entrar, então entram.
Mas é tudo um processo lento e gradual, que demora o seu tempo. “Ninguém pode tomar uma decisão destas de repente”, frisa a Irmã Cristina.
Quando entra, fá-lo como postulante - uma fase que dura entre seis meses a um ano e meio. “Sem hábito, acaba por ser uma leiga, mas que vive dentro da clausura”. No final desse período, toma a decisão, ou não, de vestir o hábito e torna-se noviça.
Depois de dois anos com o hábito e com o véu branco - anos de noviciado – a candidata faz a primeira profissão, temporária, renovada ao final de um ano, por um período máximo de três anos. Chegado ao final dos três anos, a noviça faz a profissão solene, onde adquire o véu preto.
Este processo equivale a seis anos de profissão, onde se pretende que a candidata reflita na sua vocação, onde a comunidade a conhece e onde se percebe se de fato “é ou não é”.
Esta é uma vocação que não se abraça de ânimo leve, pois as exigências, até em nível familiar, são marcantes. A Superiora explica que “a família não a pode ter junto dela sempre”, apesar das visitas que fazem e do visível carinho.
Prestes a fazer 19 anos de entrada no Carmelo, a Irmã Cristina recorda a sua opção.
Inicialmente “quando fui chamada, não achei graça nenhuma à idéia de vir para o Carmelo”. Na altura, a Irmã Cristina Maria desconhecia, inclusivamente, o que era o Carmelo.
Cristina Maria leu Isabel da Trindade, uma monja carmelita francesa, e “gostei muito”. Foi quando percebeu que “alguma coisa fazia demasiado eco dentro de mim”, porque, conta, “toda a vida pensei casar e não teria grandes problemas com isso”.
O chamamento foi forte, ao ponto de dizer que “só quando entrei no Carmelo é que sosseguei”.
“Estou aqui não pela minha força ou perseverança, mas porque Deus me concede essa graça” e adianta que “no dia em que Ele me tirasse essa graça eu não seria capaz de aqui continuar”.
A forma como hoje vê o Carmelo é completamente diferente de quando entrou. No início, recorda, tinha muito vincada a idéia de “eu e Deus”.
“Vim para aqui para amá-lo, sem dúvida”. Mas a pouco e pouco “o coração, porque facilmente a cabeça compreende isto, vai compreendendo mais profundamente a importância, pois não vale a pena amar a Deus se não amamos os irmãos”.
Alegria vivida
Nos dias circundantes à inauguração do novo Carmelo de Fátima, sendo também uma ocasião especial, a alegria que as irmãs sentem é redobrada. Mas este é apenas um sinal exterior do que se vive e sente por viver no Carmelo.
O acolhimento e a entrega que as irmãs sentem e demonstram por todas as pessoas que as visitam transborda.
“Quem procura relacionar-se com Deus tem que saber relacionar-se com os homens, o que não quer dizer que nós saibamos fazê-lo, mas tentamos”.
A Superiora atribui a alegria do acolhimento à ternura que sentem. “Temos muitas pessoas nossas amigas e talvez seja uma forma de nos fazermos próximas delas, já que tantas vezes não temos ocasião para mostrá-lo”. Mas o que brota para fora é o que se vive dentro. “Há uma empatia mútua que se cria assente na fé das pessoas”.
Uma senhora na inauguração da Capela dedicada aos Pastorinhos de Fátima dirigiu-se à Irmã Cristina para manifestar a sua alegria por participar na cerimônia e por poder visitar as instalações. “Mas frisou que o que tinha gostado mais tinha sido do acolhimento das irmãs”.
A Irmã Cristina Maria dá conta de um “mundo tão frio que as pessoas necessitam de um sorriso, de uma palavra, de um acolhimento, que é o que menos têm”.
Mesmo do lado de dentro do Carmelo, a Superiora nota que “as pessoas passam a vida a correr de um lado para outro, e acabam por se tratar superficialmente. Por isso, quando se encontra um coração que acolhe, a pessoa sente-se bem”.
“O acolhimento é dos valores que atualmente as pessoas mais precisam e mais desejam”, enfatiza. O Carmelo é também chamado a dar visibilidade “desse acolhimento e amizade, do abrir os braços às pessoas e sabê-las amar”.
Vida, dia a dia
As carmelitas iniciam o seu dia às 5h45. Meia hora depois encontram-se para rezar Laudes e depois, segue-se uma hora de oração mental. “Estamos todas juntas, no coro, perto da capela, onde vemos o sacrário, mas cada uma está a rezar em silêncio”, explica a Superiora.
Depois desta hora, segue-se o pequeno almoço “e fazemos mais qualquer coisa” antes das 8h15, hora em que celebram a eucaristia. Os responsáveis atuais pelas celebrações eucarísticas são os padres da Consolata.
Após a eucaristia “rezamos Tércia”, uma “hora menor do Ofício Divino” e depois as irmãs, realizam as mais diversas tarefas, até ao meio dia.
Às 12h rezam o Angelus e segue-se o almoço em silêncio. Na sala da refeição está um púlpito onde uma das irmãs lê uma leitura, uma história de um santo, o catecismo ou até mesmo notícias do Observatório Romano, enquanto as restantes comem.
Após o almoço e a arrumação da cozinha que “é muito rápida pois todas ajudam”, segue-se uma hora de recreio.
“Não se trata de saltar ao eixo”, brinca a Superiora, mas admite que “somos muito barulhentas umas com as outras”. Habitualmente em silêncio, nas horas de recreio “somos muito esfuziantes e quando podemos falar procuramos mostrar essa amizade”, aponta.
No recreio as irmãs estão todas juntas a fazer várias tarefas. “Algumas descascam batatas, outras fazem terços para vender para a loja” – uma forma de subsistência - e “falamos muito”.
Segue-se uma visita ao Santíssimo e voltam para o trabalho até às 15 horas. Nesta altura rezam a hora de Noa, “outra hora pequena do Ofício”.
Segue-se uma leitura espiritual durante uma hora. Pelas 16h15 regressam ao trabalho até às 17h30, hora das vésperas.
Segue-se “nova hora de meditação mental, tal como de manhã” e depois as carmelitas jantam, tal como na hora do almoço, acompanhadas de uma pessoa a ler.
Novamente recreio à noite e passado uma hora, rezam “o ofício de leituras”.
No final desta oração, “toca uma sineta e é o silêncio grande”, descreve a Ir. Cristina. Não se trata de um silêncio rigoroso, “podemos falar se necessário, mas o desnecessário deixa-se para depois”.
A partir das 21 horas até às 21h45, as carmelitas seguem para a cela, “em silêncio” e “fazemos o que precisamos. Algumas lêem, outras estudam, outras escrevem e depois rezamos completas, todas juntas”. Quando terminam pelas 22h 15m, é hora de recolher às celas.
É uma vida muito particular. “Uma vida de silêncio, de oração, de solidão mas não solitária, não no sentido triste”, avança a Superiora.
As pessoas não estão habituadas ao silêncio. Quando se entra no Carmelo, a Irmã Cristina registra a dificuldade de “nos habituar ao silêncio, saber estar em silêncio”. Mas esta quietude não significar “estarmos apenas conosco mesmas, mas abrir um espaço para que Jesus possa falar”.
A Superiora descreve um espaço em que há silêncio, mas onde “há relação com as irmãs e é isso que faz com que a nossa oração vá crescendo e nós também”. Sabiamente acrescenta que “aprender isto, às vezes, leva uma vida”.
O silêncio surge com a naturalidade. Não sendo nada simples, tudo no Carmelo parece natural.
“É muito bonito quando se chega à possibilidade de perceber o Carmelo como algo muito simples, mas cheio de uma beleza muito grande”, aponta a Superiora.
“Jesus viveu 33 anos, numa vida simples, de família, escondida. Viveu para mostrar que isto é o essencial da vida”, explica.
A descrição e serenidade são condições que hoje são distantes das pessoas. “Todos querem ser visíveis, chamar a atenção” ao ponto de viver na descrição não ser compreensível para as pessoas.
Mas esta vida “na naturalidade, no óbvio, o permanecer na autenticidade faz com que a vida, realmente seja vida”, resume simplesmente.
No Carmelo, porque a clausula não permite a exposição, “temos condições para viver em autenticidade, em naturalidade, para que possamos fazer uma experiência de Deus”.
Uma experiência também possível aos leigos que pode converter.
“As pessoas mais afastadas da Igreja deixam-se tocar não por palavras nem por livros que leiam, mas pelo «Vinde e vede». E aqui experimenta-se a vida de família, e sente-se o amor”.
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