segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Dia 14 de dezembro - Solenidade de São da Cruz


Frei João da Cruz, alma transformada em Deus, sentiu como ninguém o sopro carismático da poesia, esse sopro misterioso que estremece as entranhas do espírito com a violência de uma invasão divina. Toda poesia é uma dádiva de graça e amor. A de São João da Cruz é além disso uma mensagem divina: descobrir Deus nas criaturas, contemplá-las "vestidas de sua formosura", surpreender a "passagem" de Deus que vai "mil graças derramando" por onde quer que passe. Tudo isso é levar as coisas a Deus, sua fonte e princípio. Sublime missão sacerdotal da poesia de São João da Cruz!
O Santo dos "nadas", franzino e delicado de tanto mortificar-se, deixou escapar seu espírito, incapaz de contê-lo no limite reduzido de seu corpo pequeno, e do encontro de sua alma com Deus, presente em todas as coisas, brotou como uma "cristalina fonte" sua poesia: - que é evasão de si mesmo: "Onde é que te escondeste, / Amado, e me deixaste com gemido?"; - que é ferida de amor: "Oh! chama de amor viva / que ternamente feres!"; - que é vida: "Vivo sem viver em mim"; - que é posse de Deus.- "O rosto reclinado sobre o Amado, tudo cessou e deixei-me..."
Pedaços de uma alma encantadoramente terna e sublimemente divina. Versos que em sua maior parte nasceram da "solidão sonora" e dolorosa de Toledo (1577-1578). O corpo de Frei João sofria e se consumia, seu espírito, quase "rompida a teia" de sua vida, cantava a todas as coisas como pressagiando o abraço embriagante com Deus.
Os versos do santo carmelita em sua fragilidade virginal oferecem-nos "esboçados" - a palavra é apenas um reflexo de nosso interior - os "semblantes prateados" de seu espírito, de sua experiência mística, de sua vida divina. Como captar esse espírito e essa vida?
Só os corações puros podem sentir o "toque" do espírito sanjuanista, só os olhos límpidos podem intuir essa vida, que é mais vida de Deus que de São João da Cruz.
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Escritos espirituais
Suas poesias nos desvendaram timidamente - quiçá porque além não nos seria dado penetrar - o mistério da alma de São João da Cruz. Aqueles versos que, a princípio constituíram recreação espiritual e artística, converter-se-iam, com o correr do tempo, sob a inspiração do espírito que os havia vivido, nos grandes tratados ascético-místicos do sanjuanismo. Estes são todos encabeçados por uma poesia, que, às vezes, funciona como mero artifício externo (Subida e Noite), e outras, como síntese do tratado (Cântico e Chama). Historicamente, poesias e tratados se mesclam e entrelaçam na vida de São João da Cruz. Existem, também, outras obras menores, anteriores ou contemporâneas aos grandes escritos. Reunimos aqui ambos os grupos sob o título convencional de "Escritos Espirituais". Convencional porque tais são também as poesias e as cartas. Não obstante, gostaríamos, por um lado, de manifestar e resumir nele o que foi o magistério espiritual de São João da Cruz, e, por outro, expressar, de algum modo, um tipo literário particular e próprio; enquanto as poesias e as cartas são gêneros bem definidos, os demais escritos sanjuanistas em prosa, ainda que de valor e características muito diversas entre si, apresentam, contudo, uma tonalidade geral comum que os distingue claramente dos outros dois grupos. Todos eles ficam, pois, compreendidos sob esse título tão flexível de "Escritos Espirituais".
O magistério de São João da Cruz é vasto, profundo, assume numerosas facetas; o que começou sendo um sussurro de confessionários e locutórios ou entretenimentos e leituras a meia voz nos mosteiros e conventos carmelitanos, converteu- se em voz altissonante, a ressoar por toda a terra. A doutrina de São João da Cruz é evangélica: clara, direta, desassombrada. Seus famosos "nadas", que os espíritos fracos tanto abominam, são lógica levada às últimas conseqüências, com a lógica das leis divinas, que jamais claudicam. É teologal: a fé, a esperança e a caridade nunca atingiram uma valorização espiritual tão profunda como nos escritos de São João da Cruz. Nisto é evangélico e paulino.
As virtudes, que são a posse de Deus, não podem coexistir com o que não é Deus: o vazio do criado é a base da plenitude do Criador. Os nadas não são sombrios, porque são, ao mesmo tempo, abundância, gozo, tudo. São João da Cruz insiste tenazmente neles, porque são poucos os que se sentem com forças para aceitá-los. Porém somente por essa senda é que se chega ao festim sagrado, ao cimo do monte. Cumpre atravessar as noites passivas e ativas do sentido e do espírito (Subida e Noite) para chegar à radiosa e meridiana luz da vida de união (Cântico e Chama). Existe, pois, uma íntima unidade literária e doutrinal entre as obras de São João da Cruz, principalmente nas maiores. Compostas quase integralmente no lustro 1582-1585, fecundíssimo do ponto de vista literário, uma mestria sorte as nivelou; enquanto subida e Noite ficavam incompletas, Cântico e .Chama, pelo contrário, foram redigidos duas vezes.
Os diversos escritos aqui reunidos constituem outras tantas formas de apostolado espiritual. Há unta grande diferença entre a primeira representação gráfica do Monte, os conselhos e sentenças em forma de bilhetes, os tratados breves e as obras mestras. Porém, em todos eles perpassa um sanjuanismo límpido endereçado às grandes almas.
É isso o que pretende significar o esquema seguinte, que, partindo das composições não tão essenciais (tais como os Ditames de espírito, recolhidos e transmitidos indiretamente por testemunhas oculares) e prosseguindo pelos escritos propriamente do Santo, segundo uma ordem lógica e cronológica, pretende dar unidade ao múltiplo e variado magistério de São João da Cruz.
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